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A Elphaba...
Adoradora de literatura em geral.
Viciada em literatura fantástica e romântica.
Fascinada por outros mundos e uma eterna sonhadora, assim eu sou.
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quinta-feira, 17 de agosto de 2017
Sinopse:
Os piratas do Rouxinol veem-se cada vez mais longe de conquistar o ouro da galé castelhana Niña del Mar devido aos estragos causados pela violenta tempestade que se abateu sobre o barinel. A descoberta da identidade de Leonor faz com que Corvo queira regressar de imediato aos Açores, para entregá-la à guarda do pai. Porém, a tripulação discorda e a caos instala-se a bordo.
O que Leonor mais deseja é lutar ao lado dos companheiros e recuperar a confiança de Corvo. No entanto, Tomás Rebelo continua a precisar dela para alcançar o propósito funesto que o levou a assenhorear-se de Águas Santas. Conseguirá Leonor chegar incólume à misteriosa ilha das Flores, conhecer o Açor e abraçar a irmã, ou acabará abandonada por Corvo, à mercê dos caprichos do abominável Tomás Rebelo?
Foi com toda a emoção e aventura a que as narrativas de Sandra Carvalho já nos habituaram que chegou ao fim a sua belíssima história inspirada na descoberta do Arquipélago dos Açores.
O romance e o extraordinário estiveram, uma vez mais, em destaque, presenças constantes naquele foi um desenlace épico e surpreendente para qualquer leitor.
*Esta opinião pode conter spoilers para quem não leu os títulos anteriores das Crónicas da Terra e do Mar.*
A vida de Leonor mudou, irremediavelmente, para sempre. Saber a verdade sobre os seus laços de sangue, as façanhas inimagináveis em que participou com piratas e o facto de se ter apaixonado, verdadeiramente, pela primeira vez, transformaram a jovem mimada numa mulher única e, principalmente, deram-lhe uma perspectiva do mundo e dos outros que nunca ousaria alcançar.
Agora em O Grito do Corvo, vencida uma grande batalha e chegada àquela que acredita ser a sua casa, Leonor vai descobrir novas lutas emocionais e ver-se perante novos factos que voltarão a reinventá-la. É o momento de travar derradeiros desafios e ao lado dos que mais estima, até daqueles que julgava perdidos, descobrir se conseguirá voltar a ser feliz.
Gostei imenso do ritmo desta série, repleta de reviravoltas, com cenários variados e a componente fantástica trabalhada de forma leve mas bastante original – tendo como base a fé que, como bem sabemos, tão bem caracteriza o povo lusitano. Neste terceiro livro as principais características da escrita da autora e desta história em particular estão evidentes, com a acção a decorrer em catadupa, conferindo um virar de página sôfrego e deixando quem lê ansioso pelo desfecho. Além disto, o agente surpresa funciona muito bem e, mais que uma vez, fiquei realmente admirada com os desenvolvimentos e consequentes desenlaces.
Para lá do que já referi e atendendo ao espaço temporal que acompanhamos, a evolução dos interveniente é outro ponto positivo, não só em relação à protagonista, como também da sua melhor amiga, de Corvo e os restantes piratas, cada um oferecendo uma visão e postura diferentes perante os acontecimentos, com direito a um desfecho pertinente.
Por fim, creio que, sem revelar demasiado, posso dizer-vos que esta obra em particular é mais dedicada a questões afectivas. Até então, todo o enredo primou por traçar caminhos e oferecer peças a um puzzle fascinante que, agora, se revela com primor e confere ao romance especial destaque, com o misticismo típico de Sandra Carvalho que, até nas últimas páginas, soube deixar-me um sorriso no rosto e o desejo de voltar a mergulhar nas suas palavras.
Esta é uma aposta Editorial Presença que, de modo geral, me agradou bastante. Foi o livro perfeito para os primeiros dias de praia e que despertou em mim o desejo de saber mais sobre os Açores.
Títulos anteriores das Crónicas da Terra e do Mar:
O Olhar do Açor – Opinião
Filhos do Vento e do Mar – Opinião
Título: O Grito do Corvo
Autora: Sandra Carvalho
Género: YA; Fantasia; Romance
Editora: Editorial Presença
Para comprar o livro O Grito do Corvo, clique aqui.
segunda-feira, 24 de abril de 2017
Sinopse:
Forçadas a fugir de Águas Santas para escapar à fúria de Tomás Rebelo, Leonor e Guida chegam ao porto de Lisboa e confrontam-se com Corvo, o famoso pirata sobre o qual se contam tantas lendas. Horrorizada com a descoberta de que é filha de Diogo, o Açor, Leonor decide disfarçar-se de rapaz quando Corvo a obriga a embarcar no seu navio, protegendo-se assim dos impulsos masculinos. Inconformada com o seu destino,
Leonor resolve fazer tudo para escapar aos piratas. Porém, com o passar do tempo, sente a herança do Açor a despertar dentro dela. O segredo que ensombra o passado de Corvo começa a inflamar a sua curiosidade, enquanto estabelece amizade com os homens que tanto temia. Conseguirá ela regressar a Águas Santas e desmascarar a perversidade de Tomás Rebelo, ou o apelo da liberdade e da aventura, conjugado com a vontade de conhecer o seu verdadeiro pai, tornar-se-á irresistível?
*Primeiramente, um muito obrigado à Sandra Carvalho por me enviar este título autografado, atenções destas fazem a diferenças mas, acreditem, em nada influenciam a minha opinião sobre o seu, já confirmado, talento.*
Começando vagarosamente e ganhando ritmo cadenciadamente, tal como um navio que anseia entrar no mar, insuflar as velas e atingir a velocidade perfeita para a sua viagem, o segundo livro das Crónicas da Terra e do Mar acabou por me conquistar ao longo do seu percurso e recordar-me os motivos por que sempre sugeri e gostei de Sandra Carvalho.
Dando continuidade à história de Leonor e a sua companheira de fuga, Guida, a narrativa torna-se mais abrangente a outras personagens e oferece uma perspectiva interessante sobre piratas e a sua influência na História de Portugal. Uma vez mais, uma pitada de romance e magia tornam-se aliados de um texto que vai tendo momentos cativantes de acção, intercalados com os dilemas íntimos dos protagonistas.
Após conhecermos a história de amor de Constança e Açor, a terra especial de Águas Santas e termos um primeiro olhar pelo lado mais negro da cobiça e da nobreza portuguesa, Filhos do Vento e do Mar apresenta-nos uma segunda geração de personagens e um novo cenário cativante para os que desejam saber mais sobre as conquistas marítimas e aqueles que davam as suas vias em alto-mar.
Bastante diversificada no que respeita a intervenientes, ao longo na narrativa nem sempre foram os protagonistas a cativar-me o que, no entanto, não significou que de um modo geral não me tenham agradado.
Leonor é, por vezes, um pouco infantil, uma verdadeira fidalguinha que vai encantando pela evolução que vai sofrendo, terminando maravilhosamente. Guida, por outro lado, irritou-me permanentemente, mesmo que compreenda o seu papel e consequentes actos.
Já no que respeita aos piratas, Corvo em particular, conferiram ao texto um prazer muito singular, com cada um deles, cada uma destas caricaturas, a marcar por particularidades que facilmente fascinam os adeptos de aventura – a Sandra esteve muito bem.
Aliás, intervenientes à parte, creio que esta é uma obra que dentro do seu género se encontra muito bem trabalhada por parte da autora, valorizando os vários pontos-chave em que se destaca e colocando-a, efectivamente, entre as minhas eleitas desta Sandra Carvalho.
Existe algo de absolutamente fascinante na pirataria, talvez seja o perigo, talvez seja as muitas lendas que lhes estão associadas, quem sabe, até, não é a ousadia e o pecado das suas meras existências, a verdade é que a autora soube explorar cada um destes pormenores, fazendo-me vibrar com as quezílias a bordo, os segredos, os riscos e as histórias contadas a meia-luz regadas de hidromel – o imaginário visual toma facilmente conta do leitor.
Paralelamente ao cenário mágico em alto-mar e a própria fantasia, leve, que a escritora atribui às suas histórias, o enredo conseguiu prender-me por si mesmo, entre o passado e o presente, pela perspectiva de Leonor mas, principalmente, por Corvo, ambos com antecedentes interessantes e promessas de futuro cativantes – dramas familiares, traições e romances que enlaçam página após página.
Além do que já vos contei, como referi anteriormente, o leitor pode contar ainda com pedaços da nossa História que conferem veracidade ao que nos é contado. Ou seja, este é um romance que se situa entre o extraordinário, lusófono e young adult mas, ainda assim, abrangente a um público diversificado e que rivaliza com o que se escreve além-fronteiras.
Uma obra de que gostei muito e que sugiro, sem restrições, a todos os fãs de uma aventura em contexto histórico.
Livro anterior:
O Olhar do Açor – Opinião
Título: Filhos do Vento e do Mar
Autora: Sandra Carvalho
Género: Romance Fantastico; Histórico; YA
Editora: Editorial Presença
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quinta-feira, 23 de março de 2017
Sinopse:
A escuridão, o vento, os gritos. O mesmo pesadelo noturno desde que a mãe de Conor ficou doente. Tudo é tão aterrorizador que Conor não se mostra assustado quando uma árvore próxima de sua casa se transforma num monstro... Mas só o monstro sabe que Conor esconde um segredo e é o único a estar ao seu lado nos seus maiores medos.
Inspirado numa ideia original da escritora Siobhan Dowd, que morreu de cancro em 2007, Patrick Ness criou uma história de uma beleza tocante, que aborda verdades dolorosas com elegância e profundidade, sem nunca perder de vista a esperança no futuro. Fala-nos dos sentimentos de perda, medo e solidão e também da coragem e da compaixão necessárias para os ultrapassar.
Li o livro e chorei. Vi o filme e chorei, tanto. Finalmente é a chegada a altura de vos trazer a minha opinião da preciosidade que é, para os mais jovens e para os graúdos, esta magnífica história. Uma história especial, como todas as que nos mostram algo puro e com a capacidade de nos tocar profundamente. Uma história que nos fala sobre a dificuldade de abrirmos mão de algo que amamos com todo o coração, crescer e seguir em frente.
Patrick Ness foi convidado a pegar na ideia de Siobhan Dowd para o seu quinto livro, após o seu sopro lhe ser roubado prematuramente. Foi um convite com um peso muito próprio, um convite que eu, enquanto leitora, me sinto grata por ele ter aceitado. A escrita deste autor juntamente com as ilustrações maravilhosas de Jim Kay voltaram a tornar único um tema cada vez mais comum e ofereceram-me, duplamente, o prazer e o gosto que tantas vezes só encontro numa boa história – aquela história que podia ser minha, que podia ser tua (querido leitor).
Conor tem um pesadelo recorrente mas sabe que é apenas um pesadelo, por isso quando acorda dá continuidade aos seus dias, com mais responsabilidades que o normal por a sua mãe estar doente. No entanto, uma noite, uma noite igual a tantas outras com a particularidade de passarem Sete Minutos Depois da Meia-Noite ele recebe uma visita peculiar, o teixo que avista do seu quarto, centenário, está monstruosamente imponente à sua janela. Conor não sente o medo que deveria, Conor só quer acordar de mais um pesadelo e seguir com a sua vida mas o Monstro, o Monstro quer contar-lhe três histórias e que esta jovem criança lhe conte uma quarta, o Monstro quer que ela enfrente a verdade, uma verdade de que definitivamente virá a ter medo.
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| Ilustração de Jim Kay |
Excepcionalmente, as personagens deste enredo são bastante convencionais mas nem por isso menos impactantes, afinal são personagens que entre a fantasia, entre monstros, dão vida a questões bastante reais. Assim, temos Conor, um rapaz de doze anos que cresceu depressa devido a amargas vicissitudes, revoltado, triste e que se revela por impulsos enquanto se expressa criativamente. Existe também uma avó, autoritária, com dificuldade em acarinhar o neto nesta fase em que vê a filha tão frágil. Há ainda um pai, pai de outra família num continente distante e cujas prioridades vão desfazendo os sonhos de meninice. E há uma mãe que queria tempo, que queria acreditar e o Monstro de teixo, assustador e encantador, um narrador de verdades que perduram intemporalmente.
Não vou fazer-vos spoiler, creio que se já ouviram falar desde livro ou viram o trailer do filme perceberam o quão triste este é e o seu possível final. No entanto, como em muito do que tem realmente valor, aqui o importante não é o princípio e o fim mas sim a jornada e tudo o que podemos aprender com ela.
Neste sentido, temos temáticas muito lineares como o bullying e o cancro, retratadas com rigor e com a capacidade de nos prenderem a cada desenvolvimento, bem como questões afectivas relacionadas com amadurecimento, perda e amor; há um espelho de dor e de revolta mas também de aprendizagem e apaziguamento perante o inevitável. É a vida.
Agora este livro é fantasia, é em grande parte feito de sonhos que são também pesadelos, essencialmente das histórias que o Monstro conta a Conor. Estas histórias, as reflexões sobre estas histórias que estão longe das suas conclusões imediatas são aquelas que eu espero que leiam e que depois sejam contadas. São histórias de rainhas e cavaleiros, de boticários e seres invisíveis, são histórias com um fundo verdadeiro, são histórias que não tendo finais felizes ensinam lições preciosas que ficam marcadas no vosso coração.
Resumindo, ofereçam a uma amante de histórias um livro em que através destas e da sua magia ela encontre moral e humanidade e estarão a dar-lhe um pouco do paraíso, aquele que será um dos seus livros de eleição. E se, além disto, este estiver escrito com primor, como é o caso, e se for acompanhado de ilustrações únicas – sabiam que Jim Kay é o responsável pelas edições ilustradas do Harry Potter? – o resultado só pode superar todas as expectativas. E superou.
Esta é uma aposta Editorial Presença que eu estava desejosa de partilhar convosco. Pessoalmente, sugiro que leiam primeiro o livro e depois vejam o filme, aposto que se vão emocionar com ambos.
Título: Sete Minutos Depois da Meia-Noite
Autor: Patrick Ness
Ilustrador: Jim Kay
Género: Fantasia; Young Adult
Editora: Editorial Presença
Título: Sete Minutos Depois da Meia-Noite
Autor: Patrick Ness
Ilustrador: Jim Kay
Género: Fantasia; Young Adult
Editora: Editorial Presença
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sábado, 20 de agosto de 2016
Sinopse:
Num mundo onde as cinzas caem do céu e as brumas dominam a noite, o povo dos Skaa vive escravizado e na absoluta miséria. Durante mais de mil anos, o Senhor Soberano governou com um poder divino inquestionável e pela força do terror. Mas quando a esperança parecia perdida, um sobrevivente de nome Kelsier escapa do mais terrível cativeiro graças à estranha magia dos metais – a Alomancia – que o transforma num “nascido nas brumas”, alguém capaz de invocar o poder de todos os metais.
Kelsier foi outrora um famoso ladrão e um líder carismático no submundo. A experiência agonizante que atravessou tornou-o obcecado em derrubar o Senhor Soberano com um plano audacioso. Após reunir um grupo de elite, é então que descobre Vin, uma órfã skaa com talento para a magia dos metais e que vive nas ruas. Perante os incríveis poderes latentes de Vin, Kelsier começa a acreditar que talvez consiga cumprir os seus sonhos de transformar para sempre o Império Final…
*Quando leio um livro com a dimensão física e intrincada revelada neste primeiro título da saga Mistborn – Nascida nas Brumas – é extremamente difícil não me alargar na opinião e me dispersar em parágrafo longos. Ainda sim, acreditem, vou dar o meu melhor para o evitar, principalmente no que respeita a spoilers.*
Desde que me conheço, enquanto leitora, que a literatura fantástica é para mim como um ansiado regresso a casa, um lugar reconfortante que se escrito com qualidade consegue superar quase todas as outras viagens entre páginas. Assim, quase dez anos passados após ter descoberto Robert Jordan, era obrigatório para mim conhecer aquele que, após a sua morte, deu vida à sua história, era obrigatório desvendar mais um talento que adivinhava maravilhoso e descobrir um mundo que, previsivelmente complexo, se aproxima do extraordinário.
Um povo escravizado, submisso, é parte do cenário cinzento, perfeito, para um Império há mais de mil anos dominado por um tirano que tudo controla, que tudo subjuga, quase sem esforço, ao seu poder. É um povo sofrido e sem voz, um povo que sussurra, aquele que O Império Final traz até ao leitor. Um povo que teme a noite como teme as brumas e os seus senhores, também eles temerosos daquele que os reprime e assim exploram, explorando outros sem rosto, sem vida, sem nada – os skaa.
Uma sociedade de hierarquia extremamente rígida, onde os ladrões e os nobres dominam como conseguem os que lhes são inferiores, ofereceu a Brandon Sanderson a oportunidade de abordar de forma magnífica uma organização social que se multiplica, conseguindo sempre surpreender. Uma sociedade estruturalmente dominada pela diplomacia e desconfiança em que cada um é controlado pelo valor do seu sangue e o cheiro do mesmo que se entranha marcando, vincando na carne e elevando-se nos corpos dos poucos que no metal encontram alguma salvação – os alomantes.
No entanto, até na mais profunda escuridão tem de existir a noção de luz, uma sombra mais ténue, uma falha que se transforme num rasgo de esperança. Até na mais profunda escuridão terá de existir um grupo pouco homogéneo que, sem nada a perder, arrisque a vida para fazer nascer a fantasia. Até na mais profunda escuridão terá de existir alguém que de alguma forma acredite para que se conheça uma amostra de herói de altruísmo egoísta e, também, uma amostra de mulher que só se reconhece no medo e na miséria, uma jovem que se revê na sombra antes de descobrir o valor da indivisibilidade – os nascidos nas brumas.
Enfim, confesso tinha muitas saudades de heróis assim e tinha, efectivamente, ainda mais saudades de vilões atrozes há muito esquecidos de qualquer noção de humanidade.
Temendo já estar a prolongar-me, permitam-me frisar que a multiplicidade de personagens é extensa no que respeita ao núcleo de intervenientes que considero principais, para lá dos protagonistas – Kelsier e Vin. Estes dois, uma espécie de heróis que fogem às características habituais pelos seus passados e/ou motivações para levar a cabo a sua demanda, têm personalidades muito singulares, pelos seus traumas mas também pelos opostos que representam no grupo de que fazem parte, equilibrando a certeza com a descrença, um olhar visionário com a cegueira total de séculos de escravidão.
Para lá destes, é impossível ficar indiferente às particularidades de cada um dos outros elementos do bando de ladrões que, nas primeiras páginas, se une por uma causa impossível. Seja pelo seu contributo alusivo ao extraordinário ou por tudo o que cada um desvenda e oferece ao texto, estes servem, principalmente, para nos deixarem ainda mais curiosos pelas suas lacunas e qualidades. São tantos, estes e os outros.
Como citei anteriormente, existe um vilão que vai sendo construído principalmente na mente do leitor, o Senhor Soberano, uma criatura mitificada na mente de Vin que lhe desconhece o rosto e cuja crueldade associada é aterradora. O seu séquito fiel, de Inquisidores e Impositores, torturadores sublimes, criaturas de pesadelos são algo de que prefiro não falar para que os temam vocês mesmos.
Paralelamente a este género de Deus, religião, existem os nobres, representados belissimamente por personagens como Elend ou Shan, uma vez mais opostos, duas faces de uma moeda fundamental para o funcionamento deste império e que revelam na perfeição como funciona uma boa intriga de corte, jogando com os seus pares e tão depressa parecendo líricos como armas prontas a derrotá-los.
Por fim, não querendo acreditar que algo de errado existe comigo, não consegui deixar de me fascinar com os muitos piões, figurantes, skaa. A imagem perfeita de povo regrado pelo medo extremo, aos olhos de muitos não chegam sequer a ser números, são corpos a que se questiona inteligência, são sangue e ossos para chocar os seus iguais, algo ao nível do objecto útil e facilmente substituível, sem norte ou dignidade. Dão, juntamente com a glosas no início de cada capítulo, ênfase de forma inteligente ao desenvolvimento do enredo, em minha opinião.
Em suma, eu podia mesmo passar algumas horas a falar-vos de uma cidade coberta de cinzas, da ausência de cor ou do conforto do silêncio. Poderia falar-vos de morte ou da estranheza do sorriso, da mesma maneira que me perdia em lutas corpo a corpo com poderes fantásticos e batalhas épicas onde morrem milhares. Poderia, até, falar de amor e desgostos ou seres que além de assustadores seriam estranhos à compreensão comum, mas creio que vos tiraria o gozo que é descobrir este mundo construído eximiamente e todas as figuras admiráveis que nele habitam. No entanto, numa próxima opinião, não sei se conseguirei conter-me.
Por ora, estou maravilhada com esta grande aposta Saída de Emergência que eu espero continuar a descobrir muito em breve. Uma leitura, definitivamente, obrigatória para todos os fãs de fantasia.
Próximo livro:
Título: O Império Final
Autor: Brandon Sanderson
Género: Fantasia
Editora: Saída de Emergência
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Sinopse:
Durante dezoito anos, o destino de Tearling ficou nas mãos do Regente, manipulado pela Rainha Vermelha, uma feiticeira implacável que governa o reino vizinho de Mortmesme. Porém, Kelsea Glynn, sobrinha do Regente, é a legítima herdeira do trono. Quando completa dezanove anos, está pronta para reclamar o que é seu – e assim regressa do exílio com o objetivo de tornar Tearling um reino livre de pobreza, opressão e escravatura. Mas Kelsea é jovem, ingénua e cresceu longe da corrupção e dos perigos que assolam o reino. Cedo lutará pelo trono e pela própria sobrevivência, num caminho de crescimento em que aprende a lidar com uma herança muito pesada.
Queridos leitores, se vocês vissem a minha wishlist de importação não se surpreendiam por, uma vez mais, vos confessar que esta é mais uma história que eu tinha debaixo de olho desde que foi publicada no original. Neste caso em particular, efusivos comentários de leitores americanos que acompanho, assim como uma capa maravilhosa e uma sinopse atractiva foram motivos mais que suficientes para me fazer “dar pulos de alegria” quando soube de mais este lançamento Editorial Presença.
Desenvolvendo-se num futuro distante apesar do seu cenário épico que nos recorda a cultura medieval, Erika Johansen apresenta-nos a história de um povo há muito sob jugo tirano, cujo destino está prestes a mudar através da ascensão de uma herdeira ao trono aparentemente esquecida por quase todos.
Com a sua vida em risco e a sua astúcia levada ao limite desde o início, vamos, assim, acompanhar a tomada de poder desta jovem mulher e os primeiros e decisivos passos que terá de tomar se quiser transformar o seu reino no que sempre que idealizou através da sua formação, enquanto assistimos a uma jornada sublime de crescimento individual, não apenas empática para com a sua protagonista como também por todos aqueles que depressa passam a ser parte integrante no destino de Tearling.
Para o primeiro título de uma trilogia, são muitas e relevantes as personagens que se destacam em A Rainha de Tearling, sendo Kelsea, no entanto, o centro das atenções entre todos os outros intervenientes e os olhos do leitor para este mundo.
Com um começo quase irritantemente ingénuo, devido à sua educação protegida e equilibrada entre disciplina e afectos, é interessante vê-la tomar, aos poucos, conhecimento sobre quase tudo o que a rodeia e o muito que ficou por lhe explicar em relação ao seu reino e ao seu povo. Neste sentido, é muito bom vê-la ser arrojada nas acções sem medo de enfrentar consequências e o desconhecido baseada apenas na sua índole e convicções que lhe conferem um sentido de justiça e lealdade imutáveis e que a farão destacar-se ao longo do livro. No entanto, os secundários não são menos relevantes e muitos são aqueles que se tornam decisivos nas pequenas grandes conquistas da nossa jovem, como é o caso do rude Moca ou do misterioso Rapina, que rapidamente atraem quem lê para os seus passados incógnitos, ou mesmo da simples aia Andalie e o guarda Pen, também eles com segredos e tempos idos que despertam muita curiosidade em Kelsea.
Por fim, ainda em relação a intervenientes, só o tio Regente foi demasiado previsível na conduta e desenvolvimentos mas, de certa forma, é compensado por uma Rainha Vermelha de um reino vizinho que influencia tudo e todos e que só irá revelar-se efectivamente no próximo título desta história.
Narrado como se a própria História de Tearling estivesse a ser rescrita em cada novo acontecimento – algo possível de intuir pelos excertos no início de cada capítulo –, fiquei particularmente agradada pela maneira como enredo se desenvolve e compreendi o porquê de tanto ter ficado por explicar sobre a Travessia e o início do período pós-Travessia. Vejamos, como frisei anteriormente, este texto é construído num cenário futuro e que tem, inclusive, alguma tecnologia e alguns dos maiores pecados contemporâneos, apesar de não deixar de dar a sensação de ser muito rudimentar. Afinal, os livros são um objecto raro, perdido, e a ignorância é uma das armas que vigora entre o poder até à chegada de Kelsea – recordando-vos da sinopse, o povo é submisso, escravizado e o tráfico humano é uma prática comum, quase banal.
Além de tudo isto, a intriga de corte, entre cortes e mesmo entre um povo corrupto a partir das camadas mais baixas, são factores que para mim, enquanto leitora, são fascinantes e que aliados à magia, por um lado aterradora, por outro libertadora, fizeram definitivamente a diferença entre mais um livro de fantasia (distópico socialmente) e muitos outros que fui tendo o prazer de ler.
Em suma, esperando não ter sido demasiado vaga ou confusa neste comentário, este é um livro onde o fantástico se encontra quase latente (também ele sempre a espicaçar a curiosidade do leitor) onde as personagens e a acção se destacam para lá do surreal, quer pela estrutura social em que estão inseridas, quer pela maneira como o romance se articula e as apresenta. Os segredos e a veracidade da vertente humana são pontos criados também para enaltecer a história que tão depressa nos foca numa batalha em larga escala como numa luta individual – independentemente do protagonismo do interveniente – com a mesma capacidade de nos cativarem. Há sentimentos fortes e lições importantes, sim, mas não se iludam, também há terror e perdas que agradarão tanto aos mais jovens como aos graúdos que já conseguem outra percepção do universo retratado.
A meu ver, mais uma excelente aposta Editorial Presença que vai merecer destaque em 2016 e que eu vou querer continuar a acompanhar com grande expectativa.
Título: A Rainha de Tearling
Autora: Erika Johansen
Género: Fantasia
Editora: Editorial Presença
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terça-feira, 12 de abril de 2016
Sinopse:
Elias pertence aos Ilustres, as famílias da elite do Império. Desde os seis anos que treina na Academia Militar de Blackcliff para se tornar um dos soldados mais implacáveis ao serviço dos Marciais.
Laia pertence aos Eruditos, um povo oprimido pelo jugo firme dos Marciais. Quando o seu irmão é preso e acusado de traição, Laia procura a ajuda da Resistência. Em troca, tem de se infiltrar como escrava em Blackcliff.
Quando se conhecem, Elias e Laia percebem que as suas vidas estão interligadas — e que as escolhas de ambos podem mudar o destino do Império.
Tenho sempre receio de encarar um livro com elevadas expectativas o que, convenhamos, tem acontecido com as mais recentes publicações Editorial Presença que tenho tido o prazer de ler, mas, uma mais, vez não havia nada temer. Sim, queridos leitores, hoje venho falar-vos de mais um grande título para os amantes deste género literário – fantasia.
Um mundo atraente com uma fórmula distópica de sucesso e personagens grandiosas que nos cativam independentemente da sua moral são, numa primeira análise, ingredientes de êxito garantido, ingredientes que aliados a uma tensão crescente e muita violência me deixaram amarrada a esta aventura pela sobrevivência em nome da esperança e num cenário largamente mais hostil do que eu ousaria imaginar.
Sabaa Tahir tem uma escrita simples e crua, sem floreados, mas simultaneamente bela, quase encantatória, quando nos revela pormenores cuidados e dá provas da sua criatividade ao mesclar ficção histórica e fantasia, quando nos prende às emoções mais básicas desta amostra de humanidade por si idealizada.
A base deste universo é simples e adensa-se com o avançar da trama. Uma Chama Entre as Cinzas trata uma guerra secular que levou o seu povo a dividir-se em duas facções – ou pelo menos são estas as relevantes para o enredo – Eruditos e Marciais, os primeiros escravos dos segundos. Acho bastante curiosa esta premissa quase contraditória, em que numa abordagem linear a força física se sobrepões à inteligência. Adiante.
Satisfatoriamente, ao longo do texto são-nos dadas a conhecer a cara e a coroa deste mundo, em capítulos intercalados, enquanto vamos seguindo as peugadas de uma escrava que fará tudo para salvar o que lhe resta e de um marcial que irá revelando um lado ainda mais sombrio e desolador deste Império. São duas jornadas intensas, únicas, que quando se cruzam elevam esta obra muito acima do que eu poderia especular.
Os protagonistas, Laia e Elias, estão muito distantes da perfeição no quadro que representam e, mais ainda, da figura tipo do herói. Quanto mais os conhecemos, vendo para lá da ilusão que criaram em torno de si e assistindo à evolução das suas identidades, mais indiscutivelmente ligados ficamos a estes dois jovens fortes e belos, consistentemente interessantes e corajosos, que representam maravilhosamente os seus papéis – gostei muito de ambos.
Também construídos com esmero e não menos relevantes, são os muitos intervenientes secundários de ambas as facções. Darin, Izzi e Keenan, uma cozinheira e um ferreiro, que contribuem veemente para transformar Laia na mulher de que nos despedimos na última página e, paralelamente, Helene e Marcos (reparem nos nomes), assim como a Comandante de Blackcliff que fazem o mesmo principalmente em relação a Elias. Todos eles são enormes no seu protagonismo e no tributo para o desenlace da acção.
Reafirmando, este é um livro de fantasia pura e, para o provar, são muitas as criaturas que vão interceptando o caminho das personagens, geralmente de forma assustadora – o desconhecido tem esse dom. Aqui destaco, em particular, os Augures, seres imortais e aos quais remonta a história deste mundo, assim como Efrits ou ghuls.
Ainda sobre este universo, para lá dos Marciais e Eruditos, existem ainda tribos variadas e, segundo é dado a entender, outras civilizações que não têm enraizada a rigidez dos que acompanhamos de perto e que, provavelmente, serão exploradas no seguimento desta trilogia.
Para terminar, um dos pontos fortes do livro está associado ao ambiente recriado e vivenciado na trama, não só pelas linhas romanas que segue mas também pela forma como é estruturada a sociedade. Para ênfase da mesma, a Academia Militar de Blackcliff é brutalmente arrepiante, mostrando que mesmo no topo da escala social, da Elite, ninguém é poupado, sendo constantes do momento de terror e desolação, havendo mesmo carnificinas que envergonhariam os piores jogos nas arenas de antigamente. Enfim, para meu deleite, este cenário não se fica atrás dos piores que tenho assistido em distopias.
Uma aposta Editorial Presença que me encheu completamente as medidas e me deixou a ansiar pela continuação, com publicação prevista no original para meados de Agosto deste ano.
Título: Uma Chama Entre as Cinzas
Autora: Sabaa Tahir
Género: Fantasia
Editora: Editorial Presença
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Sinopse:
Holly Stykes foge de casa dos pais para viver com o namorado. Embora pareça uma típica adolescente inglesa, é propensa a fenómenos paranormais. Durante a fuga, conhece uma mulher estranha que a alicia com um gesto amável em troca de asilo. Décadas depois, Holly compreende por fim que espécie de asilo a mulher procurava…
Este é um thriller empolgante de David Mitchell, aclamado autor de Atlas das Nuvens que acompanha a vida atribulada de Holly numa série de eventos. Estes cruzam-se por vezes de maneira indizível, pondo-a no centro de uma perigosa jogada nas margens do mundo e da realidade.
Dos Alpes suíços da Idade Média ao interior australiano do século XIX, culminando num futuro próximo distópico, As Horas Invisíveis é um romance caleidoscópico que nos oferece uma alegoria do nosso tempo.
Instintivamente, mesmo antes de saber o que tratava, tive a certeza que iria adorar este livro… e adorei. Mais que uma simples história, esta é uma viagem plena idealizada para hipnotizar o leitor, horrorizá-lo e encantá-lo com os seus lugares-comuns e, mais ainda, com a extraordinária realidade oferecida.
Difícil de comentar, complexo a variados níveis e com um linha temporal extensa que permite incontáveis abordagens e a exploração de diversas temáticas, As Horas Invisíveis é o típico romance que nos transporta muito além da jornada da personagem principal, abrangendo todo o universo onde se desenrola a acção e com uma linha contínua de desenvolvimento que, por vezes, se desconecta propositadamente para voltar a fazer sentido nos momentos mais inesperados, nas múltiplas conclusões que tem guardadas para o seu leitor.
Com a cronologia apresentada como parte integrante do enredo, começamos por seguir a adolescente Holly no ano de 1984, momento temporal em que nos revela situações relativamente banais para uma vida normal naquela época mas que, pontualmente, são envolvidas por uma estranheza que esmiuça a curiosidade de quem lê. Da aproximação viragem do século em 1991 às mil e uma possibilidades que se vão adivinhando, este grande livro em todos os sentidos vai envolvendo e abrindo novas janelas de visão ao leitor, 2004, 2015 e 2025 são, desta feita, interlúdios e cernes de uma obra constituída por várias existências, umas passageiras outras intemporais, até que finalmente nos seja mostrado o ponto final, em 2043, num provável fim do mundo como o conhecemos hoje.
Bem sei que ficaram na mesma com o parágrafo anterior mas eu acho que esta história e o percurso inteligente da sua construção, logo de início, são uma verdadeira “bomba spoiler”. pelo que qualquer dado que eu vos faculte irá estragar a surpresa do sentido imenso que encontrarão em todas as páginas quando alcançarem a sua conclusão. Assim, e muito sumariamente, este é um texto onde várias vidas se interligam, quase sempre sem acaso, como peões de um jogo maior entre almas imortais, como armas de uma guerra secular que encontrará o seu final no princípio do novo milénio.
Quanto a personagens, esta é das raras vezes em que a sua caracterização me parece quase irrelevante, como se o seu corpo ou personalidade fossem meros adereços do que representam, daquilo que dão a ver do mundo ou do questionamento que proporcionam em relação à humanidade. Além disso são muitas – Hugo Lamp, Crispin Hershey ou mesmo Ed Brubeck – e cada uma delas teve bastante espaço e relevância no texto, ainda que não deixem de ser passageiras, chegando de repente, marcando o seu papel e, na maioria das vezes, afastando-se com o ritmo imutável da vida.
Contudo, Holly é uma presença efectiva ao longo de toda a obra e merece que a retracte, que vos diga o quão rebelde e tonta se mostra na adolescência, o quão consciente de si se tornou com o passar dos anos e com os traumas e como envelheceu, sabia e sofrida, com mais conhecimento da realidade imaginada do que qualquer ser humano poderia ousar. Holly é sensível e a sua sensibilidade levou-a por caminhos apenas fantasiados. De todos, foi dela quem mais dificuldade tive em despedir-me quando terminei a minha leitura.
Como eventualmente pode ter ficado claro, este é um livro de fantasia e a parte surreal do texto diz respeito a uma guerra longa entre Anacoretas e Horologistas. Adorava, juro que sim, contar-vos o que cada uma destas facções representa e de que forma influenciam este livro, mas isso é algo que descobrirão já perto do final, algo que vos-é alheio durante grande parte do folhear e que, por isso, não posso partilhar por aqui.
No entanto, creio que posso divagar um pouco sobre a forma como o texto está estruturado, algo que o distingue de outros títulos. Para lá das datas que referi anteriormente e que dividem o livro em várias partes, adorei o facto de na sua maioria estas serem dedicadas a diferentes personagens que, de forma bem conseguida, acabam sempre por cruzar o seu caminho com a protagonista. Este facto, para além de dar ver outras perspectivas, conferiu uma grande profundidade à obra e uma noção da palavra tempo que se foi entranhando.
Eu senti cada parte do livro ao ritmo e na temporalidade em que era apresentada e quando, para o final, momentos/capítulos anteriores eram referidos, eu senti-os como fazendo parte do meu passado também. Isto é confuso? Talvez seja, mas eu perdi-me e fascinei-me com as pistas do passado, achei o presente veloz e fugaz, frontal de uma forma crua, e assustei-me, verdadeiramente, com o horror distópico de um futuro onde, com a guerra, veio a anarquia.
Concluindo – não sei ao certo o quê, com esta opinião confusa –; este é um livro de fantasia, com muitas personagens relevantes para o leitor mas irrelevantes perante a enormidade do que é revelado. Este é um livro que escortina a sociedade e as suas alterações sociais ao longo do tempo, mostrando estigmas, focando questões proeminentes em diversos momentos ou que se julgam vir a ser relevantes num futuro próximo. Enquanto isto, o leitor pode encontrar fenómenos juntamente com o fantástico mas nunca perde o norte à credibilidade do que lhe é apresentado o que, no final, o deixará a pensar e inquieto com a consciência de tudo o que ainda estará para vir.
Sinceramente, gostei mesmo desta aposta Editorial Presença, é das que gostava de reler pois acredito que uma segunda leitura lhe dará ainda mais consistência. Igualmente, fiquei muito curiosa para ler outro livro de David Mitchell, Atlas das Núvens em particular, pois para lá de a sua escrita ser fenomenal, com alguns apontamentos brilhantes, a sua imaginação não desilude – esta narrativa foi vencedora World Fantasy Novel Award 2015.
Título: As Horas Invisíveis
Autor: David Mitchell
Género: Fantasia; Thriller; Romance
Editora: Editorial Presença
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Sinopse:
O mundo de Mare, uma rapariga de dezassete anos, divide-se pelo sangue: os plebeus de sangue vermelho e a elite de sangue prateado, dotados de capacidades sobrenaturais. Mare faz parte da plebe, os Vermelhos, sobrevivendo como ladra numa aldeia pobre, até que o destino a atraiçoa na própria corte Prateada. Perante o rei, os príncipes e nobres, Mare descobre que tem um poder impensável, somente acessível aos Prateados.
Para não avivar os ânimos e desencadear revoltas, o rei força-a a desempenhar o papel de uma princesa Prateada perdida pelo destino, prometendo-a como noiva a um dos seus filhos. À medida que Mare vai mergulhando no mundo inacessível dos Prateados, arrisca tudo e usa a sua nova posição para auxiliar a Guarda Escarlate – uma rebelião dos Vermelhos – mesmo que o seu coração dite um rumo diferente.
Poderia começar esta opinião dizendo-vos o quão positivamente surpreendida fiquei com este livro mas, em abono da verdade, eu já sabia que Rainha Vermelha tinha tudo para ser a história aprazível que se veio a revelar.
Mesclando diversos géneros literários que eu aprecio e sem a necessidade de tornar complexas as ideias fundamentais mas de interiorização simples do seu enredo, Victoria Aveyard primou pelas suas comparações belas e directas às emoções do leitor que, como por magia, se vê rapidamente envolvido num universo distópico e requintado onde a crueldade e a bondade são, de forma crua, exactamente o que aparentam ser.
Sem uma definição temporal exacta, este mundo é-nos apresentado pela perspectiva de Mare, uma jovem Vermelha cuja condição, de plebeia, é limitada pela cor do seu sangue. Assim, é tendo como ponto de partida o desolador cenário da sua aldeia, Stilts, que conhecemos os primeiros dramas desta sociedade que mina os indivíduos desde meninice, oprimindo-os, com um futuro certo na frente de guerra para todos os que não têm uma formação profissional – a generalidade. Mas, como elucida a sinopse, um rasgo do destino irá aproximar Mare do outro lado desta realidade, dos Prateados, expandindo o seu horizonte visual e encaminhando-a para uma jornada tão ou mais perigosa do que aquela que lhe estava anteriormente predestinada.
Seguindo a actual corrente literária, de protagonistas jovens com passados marcados por traumas e/ou violência, Mare acaba por revelar as lacunas da sua falta maturidade e por se deixar atraiçoar pelas emoções, não sendo, desta feita, a típica heroína perfeita e conseguindo, provavelmente, cativar quem a lê pela sua futura evolução. Para lá destas características, a sua personalidade irreverente, coragem temerária e consciência contraditória são singularidades que me atraíram particularmente, deixando-me expectante pela incerteza e instabilidade das suas acções, que permitiram que os diversos desfechos do enredo estivessem sempre em aberto.
No que respeita a intervenientes secundários e aos seus contributos, são uma mais-valia pela sua multiplicidade e a variedades de perspectivas, quadros sociais, que conseguem oferecer ao leitor. Desde os rasgos afectivos comuns de simples serviçais (Gisa), às visões minuciosas por parte de revolucionários (Farley), temos oportunidade de compreender os Vermelhos de diversos pontos de vista e de perceber os seus diferentes trajectos e posturas, alguns desde muito jovens, como o melhor amigo da personagem principal, Kilorn.
No entanto, e porque Mare acaba por passar grande parte da história entre Prateados, é pela corte e as suas singularidades que senti maior afectividade. Neste grupo em particular, a empatia é muitas vezes dúbia e, exceptuando a Rainha Elara, uma vilã em todo o sentido do termo, os meus sentimentos por estes intervenientes (Cal e Maven, por exemplo) foram maioritariamente tão fascinantes quanto repugnantes; afinal, também estes não passam de piões uma luta que transcende Mare.
Para lá das figuras ficcionais que nomeei, confesso que foi o mundo descrito e as peculiaridades que o caracterizam que me conquistaram e é sobre estes que gostaria de falar-vos um pouco.
Lembram-se de no início ter frisado que o livro abrange vários géneros literários? Assim é, e um do que mais gosto é a componente histórica da narrativa. A corte Prateada, subdividida por Altas Casas, é qualquer coisa de impressionante, repleta de intrigas, traições e sangue, de falsidade e máscaras caiem quando menos se espera, num jogo em que cada passo é ameaçado, por muito prudente que seja, por paredes que têm literalmente ouvidos.
Cada uma destas Altas Casa é caracterizada pelo seu Prestígio, poder, e aqui entra em acção outro género que adoro, a fantasia. Os seus elementos, de sangue prateado, podem ser um Swift, Telky, Strongarm, Whisper, Burner, Magnetron, Nymphy, etc., e, como o próprio nome induz, serem extraordinários na rapidez, capazes de mover objectos com a mente, ter uma força sobrenatural, entrar na psique de outros ou dominar elementos, são variados e proporcionam combates deliciosos. Sim, são uma corte violenta e fazem da brutalidade uma forma de entretenimento, com os seus Prestígios a designar o seu papel na escala de ascensão social.
Por fim, gostei muito daquilo que pode definir a obra como distópica, quer pelos seus cenários, quer pelo ambiente que é transmitido.
A Mansão de Summerton e Harbor Bay revelam um panorama com traços bastante medievais onde rasgos de futuro, televisões por exemplo, vos podem encantar, enquanto as Stilts, com um ambiente rural e primitivo, passam bem a imagem do povo, da repressão e da vida dura que motivará a origem da Guarda Escarlate – não vou fazer spoiler. Fiquei, confesso-vos, muito curiosa por saber mais sobre as Lakelands, mas esse é um cenário de que vos falarei quando fizer a opinião da continuação que, essa sim, poderá ter spoilers por ser o segundo título da trilogia.
Para terminar, tudo o que citei é envolvido em romance e algum drama familiar, dada a frágil situação de Mare, o que torna a história ainda mais interessante. Se tem lacunas, claro que sim, mas tem efectivamente pontos positivos suficientes para me deixar muito curiosa sobre a sua continuação, sobre o que se segue nesta guerra entre Vermelhos e Prateados, entre uma corte e outra mais distante que ainda dará muito que falar. Em conclusão, um enredo bem trabalhado, com imenso potencial e muito por onde desenvolver.
Uma boa aposta Saída de Emergência em terras lusas, que esta vossa leitora já tinha debaixo de olho desde o seu lançamento no original, que recomendo aos fãs dos vários tipos de narrativas acima nomeados.
Título: Rainha Vermelha
Autora: Victoria Aveyard
Género: Fantasia; Distopia
Editora: Saída de Emergência – Colecção Bang!
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Sinopse:
Uma rapariga triste.
Um rapaz apaixonado.
Um mundo em perigo.
Com apenas uma lágrima, Eureka inundou o mundo e iniciou a ascensão de Atlântida. Se verter mais duas, nada parará o maléfico rei Atlas.
Herdeira da Linhagem da Lágrima é a única pessoa capaz de o deter, mas para o conseguir terá de atravessar o oceano para descobrir Solon, um Semeador em fuga, que sabe como enfrentar o rei.
Mas a revelação do amor entre Ander e Eureka faz com que Solon envelheça rapidamente e se sinta incapaz de vencer Atlas.
Se continuarem juntos, Solon morrerá em breve. Eureka precisa de se reconciliar consigo mesma e com o que o seu sofrimento causou ao mundo.
Um segredo sobre a Linhagem da Lágrima mudará tudo, passado, presente e futuro. Eureka tem uma visão de uma lagoa encantada que revela um segredo esmagador. Com esse conhecimento, será capaz de conseguir a chave para derrotar Atlas. Mas o seu coração partido poderá deitar tudo a perder.
Entre as muitas coisas de que diariamente retiro prazer, falar sobre uma história está efectivamente num lugar cimeiro. Não precisa de ser uma história que me cative, ou de ter um toque extraordinário, basta que me faça pensar e reflectir sobre o seu valor e isso, como já constataram, todas o conseguem – sim, estava com muitas saudades de escrever uma opinião *.*
Desabafos à parte, depois de um começo que apesar de reticente não deixava de ser auspicioso, Lauren Kate voltou a revelar lacunas que para o leitor mais maduro podem ser consideradas cruciais. No entanto, para os mais jovens, fãs de fantasia juvenil, o cenário maravilhoso fértil, a acção e o romance tão épicos quanto trágicos e algumas nuances mitológicas são uma base bem condimentada que podem prometer boas horas de entretenimento.
Em A Cascata do Amor, o segundo título da duologia Teardrop, o leitor vê por fim desvendados todos os mistérios associados ao drama de Eureka – que nome, bem sei – uma jovem que tem nas suas lágrimas o poder de inundar o mundo e fazer ressurgir a velha Atlântida e o seu tirano.
Com o seu lar quebrado e o mundo como o conhecemos desfeito, acompanhamos os seus passos rumo a um destino fatalista mas que lhe alimenta esperança de salvar a humanidade, um destino repleto de enigmas, surpresas e revelações chocantes que predestina um futuro cruel para todos os que até à data conseguiu proteger.
Sinceramente, muito do texto é spoiler e há pouco para lá da sinopse que eu possa adiantar e que não seja conclusivo para o enredo, ainda assim, com novas e interessantes personagens adicionadas à narrativa, creio que vale a pena voltar a falar-vos destes intervenientes – até porque alguns sofreram metamorfoses que não foram, de todo, as mais aprazíveis.
Deixando o melhor para o fim, confesso que desejei várias vezes a morte de Eureka, que conseguiu tornar-se melodramática a um ponto extremo, assim como a de Ander, que cego de paixão e convicções me irritou profundamente. Atenção, eu compreendo que passar por todas as provações e dilemas a que estiveram sujeitos, arriscando a vida, etc., possa ser duro, mas eu acredito que quando ultrapassamos uma barreira evoluímos, já o aposto deixa-me reticente.
As boas notícias, contudo, são o surgimento de inúmeras personagens secundárias mágicas, singulares e divertidas que tornaram os desenvolvimentos bem mais atractivos, bem como algumas já conhecidas, os irmãos e a melhor amiga, que para lá de intervenções cruciais ajudam a minimizar os problemas da história.
Provavelmente já ficou claro o forte cariz fantástico do texto mas, por ser determinante, permitam-me divagar um pouco sobre todas as ilusões, intervenientes e contextos extraordinários que são dados a ver.
As quimeras que primeiro surgiram espaçadamente, ganham corpo e predominam sobre a realidade, agora bem distante quer no que diz respeito à acção ou aos cenários. Tudo é inundado de magia. As figuras ficcionais transformam-se, com os humanos alcançado poderes e tornando-se homogéneos com criatura mitológicas e bruxas em todo o seu esplendor, enigmática, benevolentes e cruéis. Sinceramente, é como se autora tivesse dado largas à sua imaginação e ultrapassado todos os limites, um pensamento de um interveniente e tudo pode acontecer, o que não deixa de ter "um quê" de fascinante.
Em suma, as emoções tendem a ser fortes se não lhes forem impostas barreiras de credibilidade e a forma como a história se desenrola é original por não seguir qualquer tipo de regra. Há momentos confusos e outros elucidativos, com o final a surpreender e a deixar espaço para a imaginação do leitor. Há! Quase me esquecia, existe a efectiva ligação ao mito de Atlântida e algumas das criaturas descritas e acções são baseada neste facto, mas, confesso, com tanto a acontecer, perdi-me e este ponto que me cativou acabou por ser suplantado pelo desfecho.
Não sei se voltarei a ler esta autora pois, apesar de considerar que tem uma criatividade acima da média e embora tempere bem os seus enredos, à alguma coisa na forma como amadurece os textos e os intervenientes que acaba sempre por não me conquistar.
Esta é uma aposta Planeta Manuscrito que, definitivamente, sugiro apenas aos fãs aguerridos de literatura fantástica mais novos.
Livro anterior:
Lágrima - Opinião
Título: A Cascata do Amor
Género: Fantasia; Romance; YA
Editora: Planeta Manuscrito
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